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O Bico de Gás



Quarta-feira, 28.12.05

Querido Pai Natal,

Desculpa só escrever agora, mas ainda vou a tempo de te pedir a prenda a que me julgo com direito depois de um ano de sacrifício para me portar bem. E a bem dizer, a prenda nem é para mim, é para todos, até para ti. O que eu queria é muito simples:

Em meados do ano de 2004 um comentador político, de seu nome Marcelo Rebelo de Sousa (sem querer ser queixinhas), propôs ao povo português que pusesse, em todas as janelas, varandas, balcões, arcadas, fachadas e abóbadas uma bandeira nacional para, imagine-se, mostrar o apoio à selecção nacional cá do quadrado e ilhas que entretanto tinha entrado num torneio da bola. Esta ideia peregrina foi a prova que MRS se devia concentrar, de corpo e alma, apenas à analise política.

A verdade é que povo seguiu esta recomendação como se ela viesse do messias reencarnado e no dia seguinte todo um Portugal acordou pintado de verde e vermelho, arrebatado por um ânimo patrioteiro e patriotosco. Esse espírito, ou então o espírito da preguiça mascarado de amor nacional, aguentou os símbolos pátrios ao ar livre até que a bandeira parecesse de um cinza desbotado ou verde musguento em ano de seca. Foi então que, finalmente, os estandartes começaram a ser retirados.

Mas o gosto pelo pendurar, e fazer perdurar, coisas à janela, que antigamente se limitava à roupa secando ao sol, ficou. E logo o povo português teve que descobrir outra coisa para enforcar nas formosas janelas de alumínio, pintadas ou descoloridas, lacadas ou não. Pois bem, agora é tempo de Natal, e foi então que alguém com infinita visão para o que não presta e para o como ganhar dinheiro com o mau gosto, se lembrou de colocar a tua figura bojuda e vermelha numa escada de corda, distribuir tal artefacto pelas lojas chinesas, indianas e dos trezentos, e convencer toda gente que aquilo era algo tão digno de se ver e ser visto numa qualquer janela do país como a bandeira. Ora, todos os portugueses, que lá conseguiram meter mão a tão cobiçado objecto, acorreram a enfeitar a sua janela com o pai natal a subir a escada.

E então lá estas tu, pai natal, em milhões de fachadas, de saco ao ombro, a subir a dita escada, ao frio, à chuva, pelo que, dentro de um meses, nem é preciso ser adivinho, mais não serás que um trapo cinzento agarrado a um fio intestino e raquítico e mais parecido com um gatuno trapezista do que com o velhote gordo, bonacheirão e bebedor de refrigerantes que sei que és.

Pois, como eu já disse, o meu pedido é simples: da mesma forma que consegues distribuir os presentes de todos em 24 horas, podias, com um pouco de trabalho extra, levar a tua figura dos prédios e moradias cá do sítio deixando as fachadas mais catitas, aprazíveis e limpas. É só isso que te peço, não preciso de mais. E agora despeço-me desde já agradecido e rezando para que esta carta te chegue às mãos,
ASENSIO

p.s.- eu tenho para mim que quem inventou o pai natal na corda foi a mesma pessoa que se lembrou que colocar o colete reflector nos bancos dos veículos era de uma excelente beleza.  

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às 19:04


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