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O Bico de Gás



Sexta-feira, 25.08.06

Combustões

O artigo sobre Zeca Afonso, no Combustões, parte de suposições discutíveis, para não dizer erradas. Um dos pecados do artigo, e portanto do seu autor, que está presente em todo o artigo, é o de associar o gosto pessoal com crítica musical para, por fim, atingir, a crítica ideológica. O gosto pessoal é definido nas três primeiras frases, não mais, apartir daí tudo o que se escreve é “crítica musical”.

Nota-se, pela necessidade de primeiro referir a sua repulsa pelo género musical, que a sua apreciação artística está poluída pela repulsa, ainda maior, das ideologias do(s) artista(s). Ou seja, repugna-me a carreira do cantor porque não aceito as suas linhas ideológicas. Exemplo: “Aquela voz fanhosa, embargada pela raiva – um ódio que se desprendia a cada palavra – nunca foi do meu agrado.” O autor do artigo consegue discernir, na voz do artista, a raiva, o ódio que obviamente, para o comentador, quem perfilha os ideais comunistas possui, o que faz dele um mau cantor. Neste artigo, o estilo musical está intimamente ligado às ideias que defende, e pelos visto não devia defender. Repare-se como todas as justificações para a repulsa do “baladismo”, género musical “em que uma guitarra e uns poemecos carregados de baias e lugares comuns faziam as delícias de um povo mal informado[..]” se centram principalmente em características políticas, tão do agrado da esquerda: “intervencionsta”, “protestarismo fácil” , “prenhe de utopias” e nunca em capacidades artísticas objectivas do(s) auto(res).


Na segunda parte, naquela em que se refere exclusivamente a Zeca Afonso, o autor do artigo consegue apreender todas as intenções de Zeca Afonso quando este utiliza “sempre as mesmas [palavras] (solidário, inquietação, amigo, companheiro, Maio, ceifeira)”. É tirar muito de muito pouco. São conclusões tiradas não da música mas dos ideais políticos do cantor. Na realidade os poemas das músicas de Zeca Afonso nunca podem ser definidos como intolerantes ou que apelam à violência, por isso a sua música não pode ser utilizada para definir o artista “como um homem violento e intolerante”. A sua música nunca aludiu a “tornar aceitável o abjecto (roubar, sanear, vingar, matar)”, os seus poemas não podem nunca ser interpretados como alusões a “tiros na nuca, prisões arbitrárias, campos de concentração, reeducações e penúria para todos”. Tanto não podem que o autor do artigo é obrigado a referir uma afirmação de Zeca, “a minha democracia não é a dos votos, mas a do poder do povo”, que não está nos seus poemas. O artigo que queria passar por crítica musical, defendendo que o cantor afogava as suas músicas em sentimentos de raiva, alusões à revolução e que por isso a sua arte não merecia ser elogiada, acabou por demonstrar o contrário. É mais fácil descortinar sentimentos de ódio no artigo combustível do que na obra toda de Zeca Afonso


Ideologicamente falando, haveria muito para dizer sobre as ideias defendidas por Zeca Afonso, assim como as defendidas no Combustões. Mas, por agora, tentava-se falar, penso eu que era a intenção, de música.

ASENSIO


p.s.
- atenção que toda a crítica aqui disposta se refere ao conteúdo do artigo e não à forma como é apresentado. Não incorro nunca no pecado de confundir mérito na escrita com desagrado pelas opiniões expressas.

p.s.2
– atendendo ao conteúdo de Zeca Afonso(2), aqui está a mais que previsível invocação ao tocar nos intocáveis para provocar a discussão ao “revolver mitos” mostrando que afinal a populaça ignorante, em vez de se queixar, deve é agradecer ao facto de haver Combustões.

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Sexta-feira, 25.08.06

Máquinas


O
14-Bis de Santos Dumont.
ASENSIO

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