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O Bico de Gás



Sexta-feira, 24.11.06

Poema da eterna presença

Estou, nesta noite cálida, deliciadamente estendido sobre a relva,
de olhos postos no céu, e reparo, com alegria,

que as dimensões do infinito não me perturbam.

(O infinito!

Essa incomensurável distância de meio metro

que vai desde o meu cérebro aos dedos com que escrevo!)


O que me perturba é que o todo possa caber na parte,

que o tridimensional caiba no dimensional, e não o esgote.


O que me perturba é que tudo caiba dentro de mim,

de mim, pobre de mim, que sou parte do todo.

E em mim continuaria a caber se me cortassem braços e pernas

porque eu não sou braço nem sou perna.


Se eu tivesse a memória das pedras

que logo entram em queda assim que se largam no espaço

sem que nunca nenhuma se tivesse esquecido de cair;

se eu tivesse a memória da luz

que mal começa, na sua origem, logo se propaga,

sem que nenhuma se esquecesse de propagar;

os meus olhos reviveriam os dinossáurios que caminharam sobre a Terra,

os meus ouvidos lembrar-se-iam dos rugidos dos oceanos que engoliram
continentes,
a minha pele lembrar-se-ia da temperatura das geleiras que galgaram sobre a
Terra.

Mas não esqueci tudo.

Guardei a memória da treva, do medo espavorido

do homem da caverna

que me fazia gritar quando era menino e me apagavam a luz;

guardei a memória da fome;

da fome de todos os bichos de todas as eras,

que me fez estender os lábios sôfregos para mamar quando cheguei ao mundo;

guardei a memória do amor,

dessa segunda fome de todos os bichos de todas as eras,

que me fez desejar a mulher do próximo e do distante;

guardei a memória do infinito,

daquele tempo sem tempo, origem de todos os tempos,

em que assisti, disperso, fragmentado, pulverizado,

à formação do Universo.


Tudo se passou defronte de partes de mim.

E aqui estou eu feito carne para o demonstrar,

porque os átomos da minha carne não foram fabricados de propósito para mim.

Já cá estavam.

Estão.

E estarão.
__________________________________________
António Gedeão
Poemas Póstumos (1983)

ASENSIO

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às 05:32



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