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O Bico de Gás



Quinta-feira, 14.04.05

Eterno Retorno

Segundo a cosmologia, o tempo do Eterno Retorno não é linear e unidireccional, é cíclico.

A ideia de um tempo cíclico surge em tempos remotos por simples bom-senso e observação: o ciclo das estações, ciclos das estrelas no céu visível, fases da lua, ciclo dia/noite, estações do ano. Os babilónicos, entre outros, foram uns dos povos que baseou o tempo na periodicidade dos planetas, mas este tipo de pensamento atingiu a civilização chinesa também.

De entre as civilizações que mais contribuíram para o pensamento ocidental, os gregos, e de entre eles, mais concretamente os estóicos, levaram a sério este tipo de entendimento. Para eles, todos os objectos estariam ligados por intermédio de acções e reacções que se intercalavam levando à óbvia periodicidade. Mesmo Aristóteles e Platão se interrogaram sobre as implicações do Eterno Retorno.

Claro que este tipo de entendimento sobre o Tempo se transmitiu aos romanos, a outra cultura clássica, sendo apenas contrariada pelo pensamento cristão. Santo Agostinho, no seu livro “Cidade de Deus”, argumenta que a filosofia cristã exige uma concepção linear do tempo. Cristo nasce uma vez, morre pelos nossos pecados uma vez e ressuscita uma vez. A partir da implementação da cristandade no Ocidente, a concepção de tempo linear quase não foi posta em causa, com as excepções de alguns eruditos medievais.

Já no Oriente prosperava a concepção da construção e dissolução cíclica do Universo ou a recorrência da catástrofes ao longo do tempo.

Na Europa, só com o aparecimento da ciência moderna é que se conseguiu fazer divergir a filosofia e a ciência. Daqui para a frente, alguns filósofos tentaram, com argumentação cientifica, dar um peso válido ao Eterno Retorno.

Friedrich Nietzsche foi um dos que tentou, através da ciência, argumentar a favor do Eterno Retorno na natureza do Universo físico. A sua argumentação começa com:

«[...] insistimos no facto de o mundo como somatório de energia, não pode ser considerado como ilimitado – excluímos o conceito de energia infinita porque nos parece incompatível com o conceito de energia» - Nietzsche, Eternal Recorrence.

Neste argumento, ele apoia-se na finitude da energia, e espaços onde esta actua, com o que queria significar um número finito de estados possíveis do Universo. Mas diz também que:

«Não precisamos de nos preocupar nem por um instante com a hipótese de um mundo criado. O conceito “criado” é actualmente inteiramente indefinível e irrealista: não passa de uma palavra que provem de idades de superstição[...]» – Nietzsche, The Will of Power.

Neste segundo argumento rejeita a ideia de um mundo criado, finito. Ora se existe um número finito de estados do Universo e um tempo infinito, os estados terão que repetir-se inevitavelmente. Daí o Eterno Retorno.
ASENSIO

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às 23:04


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