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O Bico de Gás



Sexta-feira, 11.03.05

A democracia enquanto religião

Nos séculos dos Impérios, as potências colonizadoras, tentaram sempre embutir nas suas colónias, os seus estilos de vida, o seus modos de governo, as suas religiões, as suas sociedades. Quando Portugal começou os Descobrimentos, iniciando o seu império, que durou, apesar de raquítico, até 1974, exportou regra geral a religião católica aos povos colonizados. Estariam estes prontos a aceitá-la ou não era irrelevante, eram mesmo forçados a fazê-lo. O saque comercial das colónias foi outro factor para a construção do império português. O império inglês, surge mais tarde que o português, não tem um carácter religioso tão vincado, mas tem, logicamente um traço mercantilista muito forte. O facto de nas possessões inglesas estarem, entre outros, países da costa leste de África e a Índia com crenças religiosas bem interiorizadas pelas populações respectivas, pode ter servido para atenuar a exportação da confissão cristã anglicana. Mas o autoritarismo do regime da rainha Vitória foi, sem dúvida posto em prática nesses países, e até mesmo prolongado, veja-se o exemplo das lutas de Ghandi pela independência da Índia.

Neste Século XXI a palavra imperialismo poderia parecer esquecida mas tal não acontece. Hoje procura-se exportar, tal como no tempo dos Impérios, a Democracia. Francisco José Viegas refere, no JN, que “Uma das «verdades universais» do pensamento actual diz-nos que a democracia é um valor estritamente ocidental que não se pode exportar para países de outras áreas geográficas e de «outras culturas». Mas tem havido mesmo exportação da democracia, veja-se o Iraque, o Líbano, a Geórgia, a Ucrânia, entre outros.

A implementação da Democracia parece ter sido usada como (mais uma) desculpa para a invasão do Iraque pelos EUA. Para Thomas Carothers, Vice-presidente do Programa de Estudo “Democracy and Rule of Law”, da organização Carnegie Endowment for Internacional Peace, no seu recente livro, “Ensaios Sobre a Promoção da Democracia”, conclui que “Onde a democracia parece ajustar-se à segurança e aos interesses económicos americanos, os EUA promovem a Democracia”, pelo contrário “quando a democracia enfrenta outros interesses significativos, é menosprezada ou ignorada”. Noam Chomsky acha que “Para Washington, um elemento constante é que a democracia e o império da lei são aceitáveis sempre e quando sirvam objectivos oficiais estratégicos e económicos”. Uma sondagem de Janeiro, no Iraque, mostrou que 69% dos xiitas e 82% dos sunitas são a favor de uma retirada, a curto prazo, dos EUA e seus aliados, mas logo responsáveis destes países disseram não ter um plano de retirada até que os seus exércitos tenham concluído a sua missão. Estará o Iraque, após as últimas eleições, pronto para a democracia, democracia que é incompatível com a manutenção no terreno de tropas estrangeiras? A ver vamos.

A tentativa de exportação da democracia, nos nossos dias, parece-se muito com a forma imperialista de impingir uma confissão religiosa no passado. Resta saber, não se “a democracia é um valor estritamente ocidental que não se pode exportar”, mas se os povos, aos quais os ocidentais apresentam a democracia, a querem receber.
ASENSIO

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